quinta-feira, 21 de maio de 2009

Encântico


"Estou de partida. Breve, me mudarei para a curva do teu braço.

Busco a terra sem vento, a mansa terra do teu peito. E a batida surda e quente do magma mais profundo, para embalar o meu sono. Busco a tranqüilidade da enseada. Já conheci as águas que é preciso saber. Fui bem além das colunas de Hércules e há muito descobri que por mais longe o mar, jamais despenca. Sereia, lancei meu canto por entre espumas, encantei marinheiros. E eu própria naveguei, seguindo as estrelas do céu, contando as estrelas do mar, até chegar a portos dos quais nem suspeitava a existência.

Agora é tempo de lançar as tranças na água e deixar que se enlacem nos rochedos, ancorando-me ao meu destino. Escolho o teu lado esquerdo, onde me beija o sol poente. E espero que a tua mão direita amaine as minhas selas. Assim, acima do teu coração, encosto a cabeça. E pequena como um grão, deito raízes. Aprenderei a conhecer-te através da planta dos meus pés, como o cego sabe onde pisa, como o índio conhece a trilha? Se for mansa, a maré das colinas, terei certeza de que dormes, ou pensas em silêncio. Se, de repente, meu solo se encrespar, tangido por um vento só teu, será o frio que te toca. O medo, saberei no tremor subterrâneo. E quando o suor correr farto, enchendo rios sem peixes, ameaçando me levar, será tempo de calor, será o verão cantando na tua pele.

Aprenderei a tatear-te com as mãos, a procurar meus caminhos nos valões dos músculos. Fluirei devagar, dormirei nas axilas. Não preciso de casa. Não preciso de abrigo. A terra da tua carne é quente e nada me ameaça. Posso deitar-me nua, dormir tranqüila, ou ficar acordada, olhando para o alto. O céu é calmo, as nuvens passam, indo a outros lugares. Nenhuma traz a chuva, ou a tempestade. Não preciso de pente, não preciso de panos. O orvalho da tua pele me banha de manhã e a tua respiração arruma os meus cabelos. Só quero um cavalo. Galoparei com ele as dunas do teu corpo, descerei pelos braços, avançarei pelas mãos, arriscando-me à queda nos penhascos dos dedos. Explorarei o teu ventre, matarei a minha sede no poço do teu umbigo. E, armada de desejo, penetrarei na selva dos teus pelos, emaranhada e perfumada noite, delta dos sumos, labirinto que imperioso, me chama e suave, me perde. Só depois, percorridas as pernas, visitados os pés, voltarei corpo acima, ventre, peito, subindo em peregrinação até o pescoço, repousando no vale da omoplata.

Talvez leve um cantil para a dura escalada do teu queixo. Subirei com cuidado, usando como apoio os fios de barba, procurando a caverna das orelhas para repouso e abrigo. Barulho não farei, prometo. Nada que te perturbe. Talvez no dia seguinte, ou mais ainda, passando-se outro dia na difícil subida, eu procure chegar até teus olhos. Se estiverem fechados, sentarei com paciência, esperando o milagre da íris descoberta nascer do olho que se renova a cada despertar, astro de luz, surgindo sob o horizonte da pálpebra. Se estiverem abertos, sentarei à beira deste lago, fonte, olho d'água, encantada com a dança dos reflexos, ilusórios peixes, deslizando suas sombras sob um fundo sem algas. E haverá um momento em que, vencendo o medo, mergulharei na transparência, para nadar em direção ao redemoinho negro da pupila.

A aresta do nariz é perigosa. Eu bem conheço a sua linha sinuosa, sua falsa maciez sobre o duro arcabouço. Não convém que a acompanhe. Seguirei pelo lado, encostando-me às arestas, esgueirando-me para não ser tragada. Não tentarei desvendar o mistério do sopro. À boca, chegarei com respeito. Virei pelo canto, descendo ao lábio inferior, o mais carnudo. Avançarei deitada, rastejando-me de leve na pele úmida, até chegar à borda. E me debruçarei sobre as palavras. Breve me mudo para a curva do teu braço. Não saberei mais de você do que já sei. Nem você saberá mais de mim. Mas talvez assim perto, encostada na raiz do teu ser, eu possa me esquecer de onde começo e me esquecer em ti na minha entrega."

(Encântico - Marina Colassanti)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A ÚLTIMA CARTA


"Eu prometo: fecharei meus olhos para não ver nada. E você, continue fingindo que me ama. Prometo nunca mais tocar no assunto em nome da nossa paz necessária. E aceito seu jogo de faz-de-conta. É nosso trato. Nosso pacto silencioso. Eu sei que você concorda. Você sabe que eu aceito.

Abro mão dos meus planos e das minhas fantasias. Omito-me os meus sonhos sentimentais. Prometo sofrer calada e chorar intimamente, mas só por hoje. Prometo não cobrar nada e manter na face, de agora em diante, o mesmo ar de tranquilidade dos que conquistaram, dos que conseguiram.

Meu coração há de entender não lhe darei escolha. Em todo caso, se não entender, prometo fielmente não transparecer, nem no olhar perdido, nem no tremer da voz, nem nos gestos contidos... nunca. Serei eternamente fiel ao nosso acordo de paz.

Prometo aceitar compreensivamente cada ausência.

Prometo não sofrer de ciúmes.

Prometo, ao invés de falar, calar.

Comprometo-me a compreender as faltas e os atrasos quantos forem e dispenso as justificativas. Estás eternamente perdoado!

Prometo não cobrar nem atenção, nem carinho, nem cuidado, nem ajuda, nem lealdade, nem nada. Nem promessas ou projetos antigos pra nós dois.

Prometo: meu amor será seu eternamente. Prometo cobrir-me de flores e presentear-lhe com o mais perene e manso dos semblantes... um semblante de paz.

Sim, prometo-lhe a paz dos que amam. E a mim a paz dos que dormem.

Descanso em paz. "
(A última carta - WallaceLemos)

domingo, 3 de maio de 2009

Para John!

Magicamente, certas pessoas são acrescentadas às nossas vidas.
Dentre tantas explicações (ou tentativas) de como e por quê isso acontece encontramos, no mínimo, duas teorias preponderantes e que se degladiam desde a sua existência: o acaso e o destino.
O acaso com sua atmosfera de imprevistos e indiferenças.
O destino com seus ares de ditadura cósmica.
No fim, nenhuma das duas me encanta ou se faz suficiente. Se foi mera casualidade ou se tinha de acontecer, de fato, pouco me importa!
O que me importa é que você chegou! A partir de então, subjugo quaisquer teorias de eventualidades ou caminhos traçados ao meu poder.
Nem acasos e nem destinos explicarão SUA PERMANÊNCIA.
Submeto-os, por força, à minha ESCOLHA: Quero que fique!
Quero que fique e bem por perto, enquanto eu estiver por aqui!
Te amo, meu amigo!