quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Alma dos diferentes

" Ah, o Diferente, esse ser especial! Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser.
O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferenteque não vingou.
Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterand oalgo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção aguçada em : "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois."
(A Alma dos Diferentes - Artur da Távola)

domingo, 26 de abril de 2009

AUTORESUMO

Sou mais que um sorriso de fim de filme.
Sou continuidade... e interrupção.
Sou semente que brota e cresce.
Mas também sou árvore que cai com o vento,
Ou com os golpes do machado de um lenhador.

Sou água. Que rega, que inunda, que lava.
Mas também sou fogo, que arde e queima,
E que destrói e que renova.

Sou um rio de lágrimas,
Uma nuvem de lágrimas,
Um mar de lágrimas,
Uma chuva de lágrimas.
Mas também sou riso.

Sou criança que se ri.
Sou a mãe feliz.
Sou o pai orgulhoso.
Sou roda de amigos e de parentes,
Sou festa, sou agito.
Sou um conjunto de taças que se brindam.
Mas também sou o que resta, à mesa, depois que todos se vão.
Sou a última nota do acorde,
A última fermata depois da longa pausa.
Sou multidão e solidão.


Sou intimidade e sou indiscrição.
Não me fiz sozinho... Nem me fiz completo.
Sou um conjunto de pedaços e peças que se completam,
Encaixam-se, mas também se perdem.
Sou lacuna e preenchimento.
O todo e a soma das partes.

Sou construção, projeto, sou obra em andamento.
Sou estrutura, sou chão, sou alicerce.
Mas também sou ruína, desmoronamento,
E sou cascalho, restos de demolição.


Sou vida e morte.
Sou grito e silêncio.
Sou verdade e mentira.
Sou sorte e azar.
Sou luz e trevas.
Sou mais e menos.
O mais e o menos.

Sou a eterna pergunta.
Sou descoberta... Encoberta.
Mas também sou resposta,
Para muitas questões e dúvidas.
Sou enigma,
E mistério.
Mas sou livro aberto.


Sou de Lua,
E de Sol.
Sou da noite,
E do dia.
De noite e de dia.
Mais do que pareço.
Menos do que possa parecer.
Sou só isso...
E bem mais.

(Autoresumo - WallaceLemos)